
Divagações sobre feminismo e machismo na atual conjuntura da sociedade são desnecessárias, sempre tem milhares de opiniões sobre a mulher no mercado de trabalho, a mulher moderna, a mulher auto-suficiente do século XXI.
A única coisa que me atrevo a dizer: não é fácil ser mulher.
Poderia levantar todas as questões estéticas, psicológicas, sentimentais e profissionais, mas desisto quando eu leio a VIP que fala sobre a crise do homem moderno sendo esmagado pela mulherada no mercado de trabalho. Ou quando leio Playboy falando sobre o metrossexual, über sexual, transsexual, ou diabo de quatro. É o mais puro néctar do blá blá blá, provavelmente escrito por uma mulher recaldada, extremamente feminista e que usa um pseudônimo qualquer.
Gente, vamos ser razoáveis, ok?
O importante é ser feliz, mas sem neura de perfeição, sem nóia de estar no padrão de beleza ocidental: magra, corpinho firme, peitinho de menina de 14 anos ou de peitinho pomba siliconado, sem barriguinha, ossinhos do quadril aparecendo, cabelos sedosos e lisos. Nem todo mundo nasceu pra estar na Fashion Week, nem todo mundo nasceu pra ser modelo e atriz.
Não basta ter que ser tudo isso acima, é importante estar com as unhas em perfeito estado de conservação, bem como a depilação.
Além disso, o mundo espera que sejamos, puras, castas, mas não virgens, mas com pouca experiência e com um passado que não assuste, mas ao mesmo tempo uma máquina de fazer sexo, com expertise similar à Silvia Saint. Não podemos sugerir um menage, nem um grupal, mas se formos convidadas e não participarmos somos quadradas e obsoletas. Paralelamente, depois que se participa de qualquer modalidade alternativa, somos fáceis e quisá até classificáveis como vagabundas. Se no sexo oral a gente engole, pronto, libertina. Se diz pro cara não gozar na boca, pronto, fresca. Se a gente comenta que o gosto varia de acordo com o estilo de vida, pimba, puta paga. E se damos descrições detalhadas sobre o gosto do esperma de fumantes, carnívoros e chegados em uma birita, pára o mundo que todo mundo quer descer.
No trampo não podemos ter o deleite da TPM, o que por um lado é razoável, se não todas acham que têm o direito de serem estúpidas, e ainda assim poderem chorar e pedir desculpas falsas. Ao que me consta, quem usa qualquer método contraceptivo à base de hormônios não deveria ter tantas variações hormonais ao ponto de ter uma TPM que dê vontade de jogar um armário de livros em cima de alguém. Mas quem não está sobre os efeitos dos hormônios tem vontade sim de chorar, de morder, de mandar o mundo tomar bem no centro do cu, e numa dessas, aparece uma boa alma caridosa, que lhe dá aquele abraço ou um chocolate, sem condicionamento ou troca por uma trepada. Sim, ainda existem homens e mulheres assim, amigos leais que oferecem um ombro amigo.
Tem dias no trabalho que temos vontade que uma cratera se abra e engula quase todas as pessoas. Mesmo assim, colocamos aquele sorriso blasé falso, falamos com o português exemplar, tentamos nos portar feito damas francesas, negociamos prazos com a garganta apertada de vontade de chorar. E sim, conseguimos dar conta.
Aí chegamos em casa, maquiagem escorrida, corpo em frangalhos, emocional despedaçado, e procuramos tempo para ir ao mercado, ler, arrumar a casa, acessar o blog, ouvir aquela música favorita, vermos o namoro que tentamos manter da forma mais saudável possível. Depois ainda precisamos encontrar pelo menos 6 horas pra dormir.
E acordar.
E recomeçar tudo de novo.
E ser mulher, aguentar os dias férteis, as luas cheias.
Ligar para a família.
Beber menos.
Fumar menos.
Se estressar menos.
Cuidar melhor do pet.
Sonhar com filhos.
Sonhar com um mundo melhor.
Ajudar alguém, se doar mais.
Procurar a paz interior, o caminho da felicidade.
Seguir uma filosofia de vida.
Fazer menos mal às pessoas.
Perdoar.
Estar na terra sem achar que veio à turismo.
Ser feliz,
Fazer alguém feliz.
Amar incondicionalmente.
E dizer pras coisas fúteis, bestas e que só atrapalham a vida sem acrescentar absolutamente nada: ah, vai! Pega na minha e balança.
Anne Caroline